SOBRE

Blubell  é cantora, compositora e um dos nomes mais relevantes da música contemporânea brasileira. Ela começou sua carreira solo em 2006 com o disco “Slow Motion Ballet”, muito bem recebido pela crítica.

 

Já com “Eu Sou do Tempo em que A Gente Se Telefonava”(2011), entrou definitivamente para o hall de artistas independentes da sua geração com direito a uma turnê muito bem sucedida no Japão e a ser a primeira artista solo feminina do Brasil a participar do renomado festival internacional Lollapalooza. Com o disco de versões “Blubell&Black Tie” (2012), comprovou sua veia de intérprete e ganhou o Prêmio da Música Brasileira de “Melhor Disco em Língua Estrangeira”.

 

Com seu quarto album, “Diva é Mãe” (2013), solidificou seu estilo de composição com canções que mais parecem crônicas saídas da vida coditiana, misturando amor com humor e pop com jazz. Também com o “Diva é a Mãe”, foi uma das três cantoras indicadas a “melhor cantora pop” do 25º Prêmio da Música Brasileira, ao lado das grandes Gal Costa e Ná Ozzetti. Em 2015, paralelamente à turnê “Diva é A Mãe”,  estreou show “Blubell Canta Madonna”, um tributo à rainha do pop com versões jazzísticas de sucessos de todas as fases da carreira de Madonna.

 

Em seu quinto disco, intitulado “Confissões de Camarim”, com a ajuda do produtor Marcio Arantes, Blubell conseguiu conservar sua veia de cabaré bem humorado com um aproach mais moderno. O disco tem onze faixas e todas as canções são totalmente de sua autoria, com exceção de “Pretexto” do seu colega contemporâneo Pélico e de “A Tardinha” - parceria sua com Zeca Baleiro, que faz dueto com a cantora na faixa.

CONFISSõES DE CAMARIM 

POR VINICIUS CALDERONI

Blubell Acende a Luz no Camarim do Cabaré

 

 

Quando se pensa na palavra "camarim" na música popular brasileira, quase se pode escutar o inconfundível vibrato da voz potente de Cauby Peixoto entoando "Cantei/Cantei/Jamais cantei tão lindo assim", versos da canção Bastidores, composta para Cauby por Chico Buarque, um bolero derramado em que a personagem central, uma cantora de cabaré toma gim no camarim para chorar o abandono amoroso e se vinga sendo aplaudida de pé no palco por um bando de homens bêbados e febris. 

 

No camarim-cabaré de Blubell, o astral é outro. Não é lugar para cultuar o sofrimento atroz ou a paralisia da dor de amor: é o espaço para acender a luz e afastar a sombra, tirar as vibrações ruins, porque ali a tristeza tem fim, sim. 

 

Neste delicioso Confissões de Camarim, seu quinto disco, Blubell dá mais um passo firme na consolidação de uma trajetória marcada pela liberdade, o bom humor, a auto ironia e um adorável gosto pela desmistificação do papel idealizado do artista, traço que já se podia identificar com clareza em seu disco anterior "Diva é a mãe". 

 

Escudada por um quarteto base de excelentes músicos (Igor Pimenta no baixo, Estevam Sinkowitz na guitarra, Daniel Grajew nas teclas e Carlinhos Mazzoni na bateria), o entrosamento musical é a tônica e a liberdade é lei: as canções transitam por gêneros variados, flertando com tendências variadas e aproveitando o melhor de cada uma delas. 

 

Da levada ska de Vida em vermelho que abre o disco com júbilo solar, passando pela bossa nova folk de A tardinha em inspirado dueto com Zeca Baleiro, chega-se também a canções que aludem a uma sonoridade beatle, como Another day - com seu pianinho McCartney e o cello mágico de Mario Manga. Dá tempo de passar também por um gênero tão marcante quanto exótico como o bolero - e é uma visita muito convicta, sem medo dos derramamentos - que comparecem na homônima Bolero e em sua vizinha Funny Honey Moon, e também à atmosfera Bart Bacharach presente em Ontem: na somatória geral, é uma surpresa sonora atrás da outra e nunca nada parece fora de lugar ou alienígena e que tem como ponto máximo a surpreendente Pretexto, composta por Pélico (a única canção dentre as onze do disco que não é de autoria de Blubell), uma canção com ar lúdico, com os mágicos clarinetes de Luca Raele e que faz lembrar Being for the Benefit of Mr. Kite, dos Beatles.

 

Blubell atinge, ao fim e ao cabo da audição deste Confissões de Camarim, um lugar de maturidade e solidez digno de nota - e de comemoração. As letras são, sim, sempre bem espirituosas e bem humoradas, mas há um destemor em ressignificar as dores da vida. Em Cosmos, bela balada com toques de jovem guarda, o eu lírico da canção repassa uma série de coisas que já fez "já fui deixada, deixei também" para desaguar numa conclusão tão bela quanto verdadeira "mas isso é nada/ perto da imensidão do cosmos". Em Another Day, cantada em inglês com pronúncia irretocável, alude-se à "uma maneira diferente de se estar aqui e agora", em tradução livre. 

 

É mais do que só ressignificar as dores: é se valer do ato de fazer canções para escoar especulações filosóficas. Em Liberdade X Segurança, com uma ambientação sonora que alude às canções feitas para filmes do James Bond, há uma ponderação sobre a pendulação do espírito humano entre estes dois preceitos tão desejáveis quanto contraditórios: quando queremos liberdade? Quando desejamos segurança? 

 

O cume deste estado contemplativo chega no final do disco com a balada We’re all alone, cuja ideia central quase que tragicamente Becketiana é cantada aqui com graça e ironia, como um chamado para compartilhar a efemeridade da vida junto com o ouvinte (e não podia haver escolha melhor do que um enorme coro para cantar junto o fato de que estamos todos sós).

 

Em cada escolha, Blubell mostra a solidez da maturidade adquirida. O destemor de cantar as dores da vida, com a leveza e a sabedoria de quem já sofreu e sabe rir de si tornam o disco cativante desde o primeiro acorde. É como se, olhando-se diante do espelho do camarim, Blubell tivesse adquirido a plenitude do direito de vestir outras peles, porque sabe que nada deve ser levado tão a sério. 

 

No camarim de Blubell, não há tempo pra ficar com dó de si mesma. É hora de botar o batom vermelho e o vestido, porque o palco é o altar onde não se precisa ajoelhar. Sorte nossa.

fotos: Gal Oppido